Não diga que terei que partir amanhã pois, mesmo hoje, eu ainda estou chegando
Olhe profundamente;
chego a cada segundo para ser um broto num galho primaveril,
para ser um pequeno pássaro,
com asas ainda frágeis aprendendo a cantar em meu novo ninho,
para ser uma larva no coração de uma flor, para ser uma jóia que se esconde numa pedra. Ainda chego, para poder rir e chorar, para poder ter medo e esperança,
o ritmo do meu coração é o nascimento e a morte de tudo o que está vivo.
Eu sou a efeméride se metamorfoseando sobre a superfície do rio e eu sou o pássaro que, quando a primavera chega, chega em tempo para comer a efeméride.
Eu sou o sapo nadando feliz na água clara de um lago,
e eu sou a cobra do mato, que, aproximando-se em silêncio, se alimenta do sapo.
Sou a criança de Uganda, toda pele e ossos, minhas pernas tão finas como caniços de bambu, e eu sou o mercador de armas, vendendo armas mortais a Uganda.
Meu prazer é como a primavera, tão quente que faz as flores desabrocharem em todos os confins da vida.
Minha dor é como um rio de lágrimas, tão cheio que enche todos os quatro oceanos.
Por favor, chame-me por meus verdadeiros nomes,
de modo que eu possa ouvir todos os meus gritos e risos ao mesmo tempo,
de modo que eu possa ver que meu prazer e dor são um.
Por favor, chame-me por meus verdadeiros nomes,
de modo que eu possa despertar e de modo que possa ficar aberta a porta do meu coração,
a porta da compaixão.
(Thich Nat Hanh)
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